Fotografia de uma menina sendo preparada para receber vacinação.

Dá Ideia #04: vacinação e o retorno de doenças erradicadas

Roberta Firmino Atualidades

Após um surto de sarampo ganhar a atenção do Brasil, a questão da vacinação e o retorno de doenças erradicadas ficou em evidência no país. Em 2016, havíamos recebido o certificado da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) declarando que a região das Américas era a primeira zona livre de sarampo no mundo. 

Porém, em março deste ano, perdemos esse status. Isso porque apenas de fevereiro de 2018 a fevereiro de 2019, foram registrados 10 374 casos, com 12 mortes, números que só vêm aumentando.

Tudo isso nos alertou para a queda preocupante nas taxas de vacinação no país. Em 2017, o Brasil atingiu o nível mais baixo de índices vacinais de bebês e crianças em 16 anos! 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a OMS, o recomendado é que as vacinas obrigatórias até o primeiro ano de vida tenham uma cobertura de 90 a 95% nos países. Porém, de acordo com o Departamento de Informática do Sistema único de Saúde no Brasil, em 2018 esse índice variava entre 74 e 89% no país.

Mas, afinal, por que nossas taxas de vacinação vêm caindo? Por que doenças anteriormente controladas estão voltando?

Respondemos essas e outras questões no quarto episódio do podcast Dá Ideia, com o professor Flávio Guimarães, do Departamento de Microbiologia da UFMG. Confira agora!

O que são as vacinas e como elas funcionam?

As vacinas são substâncias biológicas que imunizam as pessoas de determinadas doenças. Porém, para entendermos o processo de vacinação, primeiro precisamos saber como o nosso corpo reage a uma infecção. Vamos lá?

Entendendo o funcionamento do sistema imunológico

Nosso organismo possui um sistema chamado de sistema imunológico. Você já deve ter ouvido falar sobre isso por aí, certo? É ele que atua quando o nosso corpo contrai uma infecção, ou seja, é infectado por um vírus ou uma bactéria.

Bom, o nosso sistema imunológico tem 2 vertentes:

  1. a primeira delas começa a combater imediatamente o vírus ou a bactéria quando eles entram em nosso corpo. Funciona como um mecanismo de emergência. Muitas vezes, ele funciona para impedir que a infecção avance. Porém, ele não é tão eficiente porque não possui especificidade;
  2. a segunda vertente é mais específica, e é constituída pelos anticorpos e pelas células de defesa. Eles levam algum tempo para ficarem prontos: de 7 a 10 dias após a infecção.

Por isso, quando contraímos uma infecção já temos uma parte do nosso sistema imunológico que começará a combatê-la imediatamente. Porém, os mecanismos mais específicos demorarão um pouquinho para começarem a atuar.

É essa vertente mais específica, ou seja, os anticorpos e as células de defesa, que ajudam a acabar com a infecção. Porém, ela com certeza será mais eficiente em uma próxima infecção.

Isso acontece porque nosso sistema imunológico tem memória. Então, da segunda vez que você for infectado por um vírus ou bactéria, seu corpo já possuirá anticorpos e células de defesa prontos, o que fará com que a infecção seja combatida e eliminada imediatamente. 

Conhecendo o processo de vacinação

Quando o nosso corpo recebe uma vacina, ele reage de forma semelhante à como faria caso fosse infectado. Isso porque a vacina vai levar para o nosso corpo algo que gera essa resposta que precisamos — a criação de anticorpos e células defensivas contra determinada doença. Em resumo, a vacina contém algo que engana o nosso sistema imunológico e força-o a reagir sem o risco da doença em si.

Portanto, a vacina elimina a primeira parte do processo pelo qual nosso corpo tem que passar para se tornar imune. Ao invés de precisarmos ficar doente para, então, conseguir nos protegermos contra determinado tipo de infecção, ficamos preparados para que, caso sejamos infectados, já consigamos ter um sistema imunológico preparado da primeira vez que isso acontecer.

Então, podemos dizer que a vacina é algo que imita o vírus ou a bactéria que causa a doença. Sendo assim, ela leva cerca de 10 dias para fazer efeito em nosso corpo.

Quais são os tipos de vacina?

Atualmente, nós temos três tipos de vacina predominantes nos programas de vacinação:

  • vacina subunidade: é formada por um pedaço do vírus ou da bactéria, como uma proteína, que não é vivo mas faz parte do organismo patogênico;
  • vacina inativada: é formada pelo próprio vírus ou bactéria que causa a doença, só que morto;
  • vacina atenuada: é formada por um processo de engenharia genética ou adaptação biológica em que o vírus ou a bactéria que causa a infecção se torna atenuado, ou seja, enfraquecido.

As vacinas atenuadas são o tipo que mais causa efeitos adversos porque pode, em um número muito baixo de pessoas, causar a doença. 

Porém, é importante ter em mente que todos os tipos causam reações mais brandas, como vermelhidão, dor local e até mesmo um pouco de febre.

Isso acontece porque as vacinas possuem um componente, que chamamos adjuvante, cujo objetivo é justamente induzir uma inflamação. Apenas assim conseguimos ter uma resposta imune do nosso corpo.

Qual é a importância da vacinação?

A vacinação é compreendida como a ação de saúde pública mais eficiente no combate a determinadas doenças.

Se pensarmos em seu impacto econômico, é simples entender as suas vantagens: considerando o custo de produção de vacinas e imunização da população em comparação ao custo do tratamento, podemos dizer que a cada dólar gasto com vacina temos de 5 a 10 dólares gastos com tratamento. Ou seja, o processo de vacinação é muito barato.

Porém, esse não é não é o único argumento a favor da vacinação. Afinal, é muito mais benéfico e tranquilo para o indivíduo se prevenir contra determinada doença do que tratá-la. O tratamento pode não conseguir aliviar a pessoa de todos os sintomas e, além disso, pode deixar sequelas.

Se pensarmos no caso da poliomielite, por exemplo, que foi erradicada no Brasil por conta do programa de vacinação eficaz, o tratamento envolve suportes para ajudar pessoas que vão precisar lidar com as consequências da infecção para o resto da vida. Já a pessoa vacinada deixa de correr esses riscos.

É importante que a gente entenda a vacinação como um pacto social: quando você trata alguém, o efeito em termos de saúde pública é centrado apenas nessa pessoa. Porém, quando você vacina uma pessoa, ela não se infecta e, consequentemente, não transmite a doença para outras, impactando no coletivo.

Gif mostrando o funcionamento do efeito rebanho da vacinação.

Efeito Rebanho: como funciona. Em azul: pessoas não vacinadas; em amarelo: pessoas vacinadas; em vermelho: pessoas infectadas.

Qual é o histórico da vacinação no Brasil?

As políticas públicas de saúde no Brasil começaram a ser formadas nas décadas de 1930 e 1940, que foi quando se começou a perceber a importância da vacinação também.

O Brasil é um dos países pioneiros na utilização da vacina Sabin (o famoso “Zé Gotinha”) para poliomielite. Esse tipo de vacina é composto pelo vírus atenuado, enquanto também existe, para esse caso, a vacina Salk, composta pelo vírus morto.

Gif mostrando o personagem de vacinação Zé Gotinha.

E porque o Brasil optou pela vacina Sabin? Pense na seguinte situação: na década de 30 e 40, o Brasil era um país com um índice baixo de desenvolvimento, o que quer dizer que não estávamos tão à frente em relação à tratamento de água e esgoto.

Quando uma pessoa toma vacina, essa substância vai para o seu intestino, se multiplica e é eliminada nas fezes, que, por sua vez, caem no esgoto, até então a céu aberto. Isso faz com que outras crianças contraiam aquela vacina e também fiquem imunes.

Usamos essa estratégia e ela deu muito certo, fazendo com que fôssemos um dos primeiros países a erradicar a poliomielite!

E porque estamos te contando tudo isso? Porque, como já dissemos, foi justamente nessa época que percebemos a importância da vacinação e ela se tornou parte das nossas políticas públicas.

Mais para frente, já na década de 1970, nós estávamos registrando 100 mil casos de sarampo e 10 mil de poliomielite por ano. Então, em 1973 foi formulado e em 1975 institucionalizado o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que obteve um grande avanço no combate às doenças e é, hoje, um dos maiores do mundo.

O que é o PNI?

O PNI é um braço do Sistema Único de Saúde (SUS) e tem o objetivo de agrupar, em uma única administração, todo o programa de imunização ofertado via SUS para a população inteira.

Sendo assim, ele controla o número de doses de vacinas e a idade em que cada pessoa as recebe, coordena as campanhas de vacinação e a necessidade de novas campanhas, dentre outros.

E por que, então, as doenças consideradas erradicadas estão voltando?

Afinal, se os nossos programas de vacinação são tão eficazes, porque doenças como o Sarampo, consideradas erradicadas, estão voltando a se manifestar no país?

De acordo com o professor Flávio Guimarães, existem dois motivos principais:

  1. como as nossas campanhas de vacinação deram muito certo e passamos a não ter mais contato com as doenças em nosso dia a dia, as gerações atuais perderam a atenção e o medo das doenças, diminuindo os índices de vacinação.
  2. o fortalecimento do movimento antivacina, que dissemina informações sem veracidade científica em massa.

O grande problema é que o controle de doenças no Brasil não resulta no controle de doenças no mundo todo. Sendo assim, elas podem reaparecer por conta de movimentos migratórios ou viagens, e se as pessoas não estão vacinadas, podem ocorrer surtos como o recente de sarampo.

Gif mostrando o reaparecimento de doenças por conta da diminuição dos índices de vacinação.

O que é o movimento antivacina?

Podemos considerar que o movimento antivacina tem um marco em 1998, quando o médico Andrew Wakefield publicou um artigo científico associando o número de crianças autistas com a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba.

Alguns anos depois, foi descoberto que os dados que ele usava eram falsos. Mas aí o estrago já estava feito: o movimento acabou ganhando muita força.

Hoje, o movimento antivacina aborda uma série de motivos para que os pais deixem de vacinar seus filhos. Em alguns países, fundamentalistas religiosos afirmam que as vacinas podem conter o vírus HIV ou causarem impotência, por exemplo. 

Também existe uma corrente que fala sobre sobrecarga imunológica por conta da administração de diversas vacinas de forma combinada e simultânea.

O ponto central é que esse movimento se forma por essas informações falsas, que são rapidamente desacreditadas. Mas, como a comunicação hoje é muito rápida, muita gente acaba acreditando.

Por exemplo: é verdade que um grande volume de vacinas em um curto período pode prejudicar a criança. Porém, a maior parte dos programas de vacinação já prevê isso, distanciando as vacinas e oferecendo-as nos momentos certos, o que evita essa sobrecarga.

Por outro lado, grande parte das vacinas são administradas no período da infância porque é quando as pessoas estão mais suscetíveis às doenças, já que o sistema imunológico ainda está imaturo.

Portanto, é fundamental sempre pesquisar a fonte e a veracidade das informações que recebemos.

O que fazer para reduzir os danos causados pela diminuição dos índices de vacinação?

Segundo o professor Flávio, a resposta é uma só: vacinar. Precisamos lembrar que, além de assegurar o nosso bem-estar, a vacinação se trata de um pacto social e de que, portanto, ao colocá-la em prática estamos protegendo não apenas a nós mesmos, mas também àqueles que estão próximos.

E aí, gostou de saber mais sobre o tema de vacinação e retorno de doenças erradicadas? Então, segue o Dá Ideia para ficar por dentro de mais temas atuais importantes. Estamos no Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Google Podcasts!

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